Da Faria Lima aos Alpes: simuladores de esqui aquecem o treino de brasileiros antes da temporada de neve
Com demanda em alta, academias especializadas em São Paulo apostam em tecnologia e experiências personalizadas para preparar viajantes rumo aos destinos mais desejados do inverno.
Viajantes que optam por treinar em simuladores transformam a experiência na neve em algo mais eficiente.
A poucos metros da Avenida Faria Lima, em São Paulo, um novo ritual vem ganhando espaço entre brasileiros que planejam temporadas nos destinos mais cobiçados de inverno. Em vez de estrear nas pistas europeias sem preparo, cresce o número de viajantes que optam por treinar previamente em simuladores de esqui e snowboard, transformando a experiência na neve em algo ainda mais sofisticado e eficiente.
Segundo reportagem da Bloomberg Línea, assinada por Sérgio Ripardo, esse movimento acompanha a expansão do turismo de neve entre brasileiros de alta renda. Em 2025, cerca de 600 mil turistas do país viajaram para destinos gelados, um avanço de 20% em relação à projeção mais recente de 2020.
A médica cirurgiã Elisa Aranzana faz parte desse grupo. Sem experiência prévia, decidiu investir em aulas em simulador antes de embarcar para os Alpes franceses. O resultado foi imediato: ao chegar a La Rosière, dispensou o instrutor particular e seguiu direto para aulas em grupo. De volta ao Brasil, incorporou o treino à rotina.
“Depois de certa idade, você quer fazer algo novo, um esporte novo. Eu queria tanto aprender a esquiar. Agora vai”, afirmou.
Esse novo comportamento encontra respaldo em endereços como a Born to Ski, aberta em setembro de 2025 na Vila Olímpia. Instalada em um galpão de 500 metros quadrados, a escola opera com simuladores de tecnologia holandesa que replicam inclinação, velocidade e dinâmica das pistas reais. A experiência é individualizada e guiada por instrutores, com aulas que variam entre R$ 330 e R$ 350.
Desde a inauguração, a operação registra ocupação total. O público reflete o entorno: moradores de bairros nobres da capital paulista, além de clientes que chegam de outras cidades e até de diferentes estados, interessados em incluir o esporte no roteiro internacional.
A faixa etária predominante vai dos 30 aos 55 anos, com leve predominância masculina. Um dos pontos que surpreendeu a operação foi a distribuição da demanda ao longo do dia, incluindo horários de almoço, evidenciando uma rotina mais flexível entre profissionais da região.
O crescimento desse nicho também acompanha a presença cada vez mais relevante do Brasil em destinos tradicionais de inverno. Em Courchevel, nos Alpes franceses, o país já figura entre os principais mercados emissores de turistas internacionais. O mesmo movimento se repete em Aspen, nos Estados Unidos.
A conquista da primeira medalha de ouro olímpica do Brasil em esportes de inverno, com Lucas Pinheiro Braathen em Milão-Cortina 2026, reforça ainda mais o interesse. A expectativa do setor é de um efeito progressivo, ampliando a curiosidade e a adesão ao esporte nas próximas temporadas.
De olho nesse potencial, a Born to Ski já prepara a expansão. Uma segunda unidade está prevista para agosto de 2026, em Pinheiros, com investimento de R$ 10 milhões e o mesmo conceito operacional.
Outros players também começam a ocupar esse território. O Beyond The Club, na Marginal Pinheiros, inclui simuladores de esqui e snowboard em sua proposta, enquanto a clínica Movitta, na Vila Nova Conceição, aposta em uma abordagem que combina treinamento técnico e reabilitação física.
O impacto vai além das pistas. O interesse crescente pelo esqui também impulsiona negócios complementares, como o aluguel de roupas especializadas. É o caso da Linda Neve, que começou com um acervo pessoal e hoje reúne mais de 1.500 peças, além de registrar crescimento expressivo desde 2022.
No centro dessa transformação está uma mudança de mentalidade. Viajar para a neve deixou de ser apenas uma experiência pontual para se tornar um estilo de vida que começa muito antes do embarque.
Para Elisa Aranzana, o objetivo é claro. Na próxima temporada, pretende evoluir das pistas iniciais para trajetos intermediários, com foco na técnica e na experiência. “Não quero a pista preta. Quero apenas esquiar com segurança e curtir cada dia da viagem”, disse.