Quando a moda vira memória: o império sensível de Valentino Garavani

A morte de Valentino Garavani, aos 93 anos, encerra um ciclo na alta-costura, mas reafirma um legado que transformou a moda em reverência à mulher.

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Valentino foi responsável por construir uma feminilidade que nunca foi frágil.

Valentino Garavani atravessou quase um século sem jamais confundir moda com ruído. Seu verdadeiro feito não foi apenas vestir princesas, atrizes, primeiras-damas ou estrelas de Hollywood, mas ensinar que a elegância pode ser um gesto profundo de afeto. Mais do que criar roupas, ele construiu uma linguagem visual capaz de transformar momentos em memória e estilo em permanência.

“Que você viva cem anos.” A frase dita por Jacqueline Kennedy, em 1966, soou como bênção e profecia. Valentino não chegou ao centenário, mas viveu o suficiente para se tornar um dos últimos mestres de uma era em que o costureiro era maior do que a marca e o tempo obedecia ao rigor do feito à mão. Morto em 19 de janeiro, em Roma, aos 93 anos, ele se despede como símbolo máximo de uma alta-costura guiada por convicção estética, não por tendência.

Desde cedo, sua relação com a beleza foi quase devocional. “Não é culpa minha”, dizia, ao justificar o fascínio pelo belo. Formado em Paris, moldado pela disciplina da Chambre Syndicale e pelas lições de Jean Dessès e Guy Laroche, Valentino retornou à Itália no fim dos anos 1950 para fundar, em Roma, uma maison que redefiniria o imaginário do glamour italiano. Ao lado de Giancarlo Giammetti — parceiro de vida e visão — criou uma casa que não apenas vestiu uma elite global, mas estabeleceu um ideal de sofisticação duradoura.

Foi ele quem transformou o vestido vermelho em símbolo absoluto de poder feminino. O Valentino Red, criado em 1959 e inspirado na intensidade dramática da ópera “Carmen”, vestiu mulheres como Jacqueline Kennedy Onassis, Elizabeth Taylor e Sophia Loren. Décadas depois, já nonagenário, voltou a surpreender ao lançar o Pink PP, em parceria com o Pantone Color Institute, provando que tradição e invenção não são opostas quando há identidade clara e segurança criativa.

Na alta-costura — sua linguagem mais precisa —, Valentino construiu uma feminilidade que nunca foi frágil. Linhas limpas, chiffon em movimento, laços e flores dialogavam com uma busca obstinada por harmonia. Ele não pretendia capturar o espírito do tempo nem ditar tendências. Queria algo mais direto e, ao mesmo tempo, mais ambicioso: fazer com que suas mulheres se sentissem belas. “Eu sei o que as mulheres querem: ser bonitas”, afirmou no documentário Valentino: The Last Emperor. Não como submissão a padrões, mas como direito.

Essa compreensão fez dele o criador escolhido para momentos decisivos. Do vestido de renda de Jackie Kennedy em seu casamento com Aristóteles Onassis ao preto e branco de Julia Roberts no Oscar, passando pelo amarelo de Cate Blanchett e pelos drapeados de Elizabeth Taylor, Valentino esteve presente quando a imagem se transforma em história — e quando a roupa funciona como uma armadura delicada.

Chamado de “o último imperador”, governou sem excessos e saiu de cena com a mesma elegância com que construiu sua trajetória. Aposentou-se sem ruído, deixando uma maison capaz de se reinventar sem trair sua essência. Sua morte encerra uma era, mas não apaga o que ele ensinou: que vestir uma mulher é um ato de respeito, sensibilidade e amor.