Jack Daniel’s e a arte da consistência: o olhar de seu mestre destilador
Chris Fletcher revela como a marca equilibra tradição centenária e ajustes precisos para dialogar com uma nova geração de apreciadores de whiskey

Chris Fletcher, vice-presidente, mestre destilador e diretor de operações da Jack Daniel's.
Entre tradição e precisão técnica, Chris Fletcher conduz a produção de um dos whiskeys mais emblemáticos do mundo com um olhar que equilibra legado e evolução. Vice-presidente, mestre destilador e diretor de operações da Jack Daniel's, ele carrega não apenas a responsabilidade de manter intacta a identidade da marca, mas também de dialogar com uma nova geração de apreciadores, cada vez mais atentos a nuances, processos e autenticidade.
Direto de Lynchburg, no Tennessee, Fletcher traduz em cada decisão a continuidade de um saber transmitido por gerações, ao mesmo tempo em que explora possibilidades sutis dentro de um método praticamente inalterado. O resultado é um portfólio que preserva o DNA clássico da casa enquanto se abre para interpretações contemporâneas do whiskey americano.
A seguir, ele fala sobre tradição, inovação e o futuro de um dos rótulos mais reconhecidos do mundo.
Jack Daniel’s é provavelmente o whiskey americano mais reconhecido do mundo. Como você preserva essa identidade icônica ao mesmo tempo em que desenvolve novas expressões para um público cada vez mais sofisticado?
Bom, eu acho que, na verdade, não mudamos muito a forma como o whiskey é produzido. Mantemos o mesmo processo e a mesma qualidade nesse processo, mas fazemos pequenos ajustes aqui e ali para criar diferenças sutis de sabor que podem interessar aos consumidores.
Por exemplo, o nosso rye whiskey é um whiskey maravilhoso, equilibrado, doce e picante, que funciona muito bem em coquetéis. Ele cria um contraste interessante com o perfil tradicional do Old No. 7. Mas o processo e a forma como produzimos o rye são os mesmos — apenas mudamos a proporção dos ingredientes. Usamos a mesma levedura, os mesmos equipamentos de destilação e, claro, os mesmos barris para o envelhecimento. Então, existem muitas maneiras de garantir que a qualidade do nosso processo permaneça o mesmo, ao mesmo tempo em que conseguimos ajustar levemente o sabor e o produto final para atender às demandas do consumidor.
Você cresceu ouvindo histórias sobre a destilaria contadas pelo seu avô. Como esse legado familiar influencia suas decisões hoje à frente da produção?
Bom, quando eu era mais jovem, eu nem entendia o que era whiskey, na verdade, e também não entendia o que a marca representava. Meu avô era apenas meu avô. À medida que fui crescendo, estudando química e decidindo seguir carreira na indústria do whiskey, ele certamente se tornou uma grande influência para mim. Provavelmente aprendi mais com ele do que com qualquer outra pessoa no início da minha trajetória. E hoje, isso se tornou algo muito importante para mim: poder dizer que fazemos o whiskey da mesma forma que o meu avô fazia. Claro, hoje produzimos muito mais do que ele produzia há 70 anos na destilaria, mas fazemos do mesmo jeito.
O whiskey americano está vivendo um verdadeiro renascimento global. Na sua visão, o que explica o crescente interesse por rótulos premium e edições especiais?
Eu acredito que os consumidores globais de whiskey estão começando a entender a pureza e a autenticidade dos whiskeys americanos e Jack Daniel’s está na linha de frente desse movimento. Cada gota de Jack Daniel’s é produzida em um único lugar: Lynchburg, no Tennessee. Ainda é feito da mesma forma que o meu avô e as famílias de Lynchburg vêm fazendo há gerações. Quando você para para pensar, no nosso whiskey, os únicos elementos que adicionam sabor e caráter são os grãos que utilizamos, a água, a levedura que fermenta esses grãos e o próprio barril. Ou seja, é um processo totalmente natural. Sem aditivos, sem corantes. Acredito que os consumidores ao redor do mundo passaram a valorizar esse nível de pureza em suas bebidas.
Visitar a destilaria da Jack Daniel’s em Lynchburg é quase um ritual para os entusiastas de whiskey. O que torna esse lugar tão especial para quem realmente aprecia a cultura da bebida?
Sem dúvida, o que torna Lynchburg tão especial são as pessoas. Quando alguém visita essa pequena cidade no Tennessee, não conhece apenas a destilaria e o grande whiskey produzido ali há gerações, conhece também a comunidade e o lugar que tornam isso possível. A hospitalidade sulista, a gentileza e o acolhimento das pessoas de Lynchburg são o que tornam a visita à destilaria algo tão especial.
Se você tivesse que escolher um rótulo de Jack Daniel’s que melhor represente hoje o espírito da marca — tradição, qualidade e inovação — qual seria e por quê?
Ainda seria o clássico Jack Daniel’s Tennessee Whiskey, porque sem o Old No. 7 nada disso seria possível. Continuamos usando a mesma receita do Old No. 7 para inovar e fazer pequenas mudanças no perfil final de sabor, mas, no nosso núcleo, no nosso DNA, está o processo de utilizar 80% de milho, 12% de cevada maltada e 8% de centeio, produzido em Lynchburg, seguindo os mesmos padrões mantidos há mais de 100 anos. O Old No. 7 ainda hoje continua sendo o whiskey definitivo quando falamos de tradição, qualidade, e eu diria também inovação.