Casa de Nizan Guanaes e Donata Meirelles na Fazenda Boa Vista revela novo olhar sobre o luxo brasileiro
Assinado por Sig Bergamin e Murilo Lomas, o projeto de 600 m² aposta em identidade, arte e referências baianas para traduzir um morar contemporâneo sofisticado e autoral.
Com elegância e autenticidade, a casa de Nizan Guanaes e Donata Meirelles reinterpreta o morar contemporâneo no Brasil.
A Fazenda Boa Vista, um dos empreendimentos residenciais mais relevantes do país no interior de São Paulo, recebe um novo projeto assinado por Sig Bergamin e Murilo Lomas, que reafirma a força criativa da dupla. Com elegância e autenticidade, a casa de Nizan Guanaes e Donata Meirelles reinterpreta o morar contemporâneo no Brasil. Com 600 m², a residência parte de um princípio cada vez mais raro no universo do alto padrão: a construção de uma identidade genuína. Aqui, não há espaço para fórmulas prontas. Cada ambiente foi concebido para refletir a história, as referências e as raízes baianas dos moradores, uma diretriz que orienta toda a narrativa do projeto.
A base material é dominada pela madeira, presente em diferentes escalas e funções, do estrutural ao decorativo, criando uma atmosfera acolhedora e sensorial. Em diálogo com ela, uma paleta cromática quente, marcada por tons de terracota, beges, verdes e azuis, estabelece um equilíbrio entre sofisticação e naturalidade, reforçando a conexão entre interior e paisagem.

É na curadoria artística que o projeto ganha potência. Obras de Os Gêmeos, Alberto Pitta e Genaro de Carvalho introduzem camadas de cor, memória e identidade, transformando os ambientes em verdadeiras galerias vivas. Mais do que elementos decorativos, essas peças funcionam como pontos de ancoragem afetiva, evocando histórias, territórios e expressões culturais que atravessam gerações.
O mobiliário segue a mesma lógica curatorial e reúne nomes fundamentais do design brasileiro, como Lina Bo Bardi, Zanine Caldas e Jorge Zalszupin, ao lado de peças contemporâneas e criações artesanais. Essa combinação resulta em um diálogo sofisticado entre passado e presente, em que o design histórico encontra novas leituras sem perder sua essência.
Texturas naturais, tecidos selecionados e tapetes de desenhos fluidos ajudam a suavizar as transições entre os espaços, criando uma sensação de continuidade e conforto. Uma informalidade elegante permeia toda a casa, revelando o equilíbrio entre rigor estético e liberdade criativa que marca o trabalho de Sig Bergamin.

Mais do que um projeto de interiores, a residência propõe uma reflexão sobre o verdadeiro significado do luxo hoje. Em vez de ostentação, privilegia autenticidade. Em vez de excesso, aposta na narrativa. É um luxo construído na soma de detalhes, na valorização da cultura brasileira e na capacidade de transformar espaços em experiências sensoriais.
O arquiteto, que completou 50 anos de carreira, explica por meio de seu mais recente projeto a importância da arte na arquitetura de interiores.
Qual o papel da arte na construção da narrativa da casa? Alguma obra, em específico, orientou a espinha dorsal deste projeto?
A arte, para mim, muitas vezes é o ponto de partida, mas nesse caso, ela surge quase como um gesto final, o que torna o processo ainda mais interessante. A casa já nascia com uma narrativa muito clara: camadas de tempo, a mistura entre peças de garimpo e design contemporâneo, e uma atmosfera brasileira construída de forma sensorial, sem recorrer ao óbvio. Dentro desse contexto, a tapeçaria de Genaro de Carvalho se integra com muita naturalidade. A tapeçaria não define o projeto, mas potencializa tudo o que já estava ali. Traz cor, movimento e uma vibração muito particular, que reforça a identidade do espaço sem alterar sua essência.
Como traduzir a história e as raízes dos moradores em linguagem de interiores sem cair no óbvio?
Eu acho que o segredo está na sutileza. Traduzir raízes não é reproduzir símbolos literais, mas sim capturar uma atmosfera. Nesse caso, as referências baianas aparecem de forma mais sensorial como na escolha dos materiais, na textura, na temperatura das cores, na maneira como os espaços se conectam. Existe uma memória afetiva que não é explícita, mas que se sente. É quase como um cheiro, uma luz, um ritmo. Quando você trabalha dessa forma, o projeto ganha verdade.
Como vocês equilibram no mobiliário os ícones do design brasileiro e as peças contemporâneas e artesanais?
Equilíbrio para mim vem da intenção. Gosto muito de criar tensão entre as peças: um ícone do design brasileiro, com sua força e história, ao lado de algo contemporâneo, mais limpo, e de um objeto artesanal, carregado de gesto. Cada elemento tem um papel muito claro. O design organiza, o garimpo traz alma, e o artesanal aproxima. Quando essas camadas conversam, o espaço ganha profundidade. E o mais importante: nada parece forçado e sim vivido, construído ao longo do tempo.
No momento em que o conceito de luxo vem sendo ressignificado, o que define hoje uma casa sofisticada?
Hoje, sofisticação não tem mais a ver com excesso, mas com identidade. Uma casa sofisticada é aquela que revela quem mora ali, sem esforço. É um lugar onde existe curadoria, mas também liberdade. Onde as escolhas não seguem tendência, mas fazem sentido. Vejo muito mais luxo no imperfeito, no que tem história, no que foi escolhido com tempo. No silêncio entre os objetos. Naquilo que não é imediato. No fim, sofisticação é isso: quando tudo parece natural, mas nada é por acaso.