A nova revolução Farroupilha tecida em fios

Como Sandra Anselmi transforma o tricô em linguagem artística e amplia o alcance cultural da marca nascida na Serra Gaúcha.

Foto_Sandra _ALTASandra Anselmi, diretora criativa da marca Anselmi. 

Era começo de tarde quando chegamos à Casa Anselmi, e o sol, rompendo a névoa fria da Serra Gaúcha, finalmente abriu sobre Farroupilha (RS). A luz atravessou as janelas de vidro grosso e pousou sobre as esculturas de tricô que se espalham pelas salas, ora suspensas, ora rastejantes, como se saíssem do chão. O espaço parece pulsar, vivo, em uma vibração quase subterrânea.

É como cair na toca do coelho de “Alice no País das Maravilhas”, só que aqui, quem nos guia é Sandra Anselmi, diretora criativa da marca Anselmi (e filha da fundadora Maria Anselmi) e o chá do Chapeleiro Maluco é servido em fios, texturas e cores.

A Casa Anselmi, criada na antiga residência de 1939 que a família comprou e restaurou, é um portal. Ao entrar, o tempo se dilata. Como pergunta o Coelho Branco a Alice: “How long is forever? (Quanto tempo dura o para sempre?). E ela responde: “Sometimes, just one second (Às vezes apenas um segundo)”. 

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É esse instante suspenso, entre o gesto e o toque, que define a experiência da arte de Sandra. Suas esculturas têxteis crescem como cogumelos, brotos orgânicos que se expandem entre o visível e o invisível. Inspirada no micélio, a rede de filamentos subterrâneos que conecta e sustenta a vida, Sandra tece uma poética sobre interconexão e pertencimento.

Cada fio é uma vida. Cada nó, um encontro. Como nas florestas, onde fungos compartilham nutrientes, sua arte propõe uma inteligência comunitária, onde o belo é também o que une.

Essa força silenciosa brota da mesma terra que, há quase dois séculos, ergueu bandeiras por liberdade. Se a Revolução Farroupilha do passado foi uma guerra por autonomia, a que Sandra conduz, de Farroupilha para todo o Brasil, é uma revolução artística feita de lã, tempo e emoção.

A criatividade se traduz nas coleções de moda, como na recente collab com Ucha Meirelles e na pop-up paulistana de esqui, com décor de montanhas de lãs e pinguins rodando em teleféricos. Não há pólvora, mas há combustão: a das ideias e da beleza que desafiam o automatismo da era digital.

Em 2024, sua obra dialogou com o design contemporâneo no espaço da Etel durante a SP–Arte. No ano seguinte, 2025, ocupou a casa -sede da família com a mostra “Natureza Tecida”, uma floresta imaginária de fios e texturas que con- vidava o público a “mergulhar” em outro ritmo.

“Os seres humanos estão interligados por fios invisíveis, conectando elementos como memória e ancestralidade. Cada fio representa um ponto de encontro de histórias e saberes”, explica Sandra, como quem traduz o segredo da própria floresta interior.

Essa sensibilidade atravessa a história da marca Anselmi, fundada por sua mãe, Maria Anselmi, e hoje liderada por seus irmãos Eduardo Anselmi (CEO) e Patrícia Anselmi (diretora de mar- keting). De Farroupilha, o nome se espalhou pelo país, conquistando o mercado com inovação, sustentabilidade e um toque artesanal que mantém viva a alma do tricô.

Mas na arte de Sandra há algo que vai além da moda. Um espelho de Alice, que reflete e distorce, para revelar o essencial. O fio é o tempo. A lã, memória. O gesto, o instante eterno.

E nessa dimensão mágica e terrena, a família Anselmi tece a nova revolução Farroupilha, uma revolução que não se mede em batalhas, mas em amor à arte. Como diria Vinícius de Moraes, que seja infinito enquanto dure.