A arte de Bia Doria entre denúncia, delicadeza e resistência

Esculturas em madeira, mármore e quartzo refletem um compromisso profundo com a natureza e sua preservação.

Bia Doria_foto lailson santos-343A artista plástica, Bia Doria, tem sua trajetória marcada pelo ompromisso ambiental.

A obra de Bia Doria nasce de um pacto profundo com a natureza. Suas esculturas, feitas de madeira resgatada, resíduos florestais, mármore e quartzo rosa, revelam uma artista que compreende a matéria não como objeto inerte, mas como portadora de memória, força e fragilidade.

O compromisso ambiental que marca sua trajetória tem origem direta na convivência com o artista Frans Krajcberg, mestre e mentor cuja obra militante inspirou não apenas sua técnica, mas sua consciência criativa.

A herança de Krajcberg e o ativismo pela arte

Da relação entre mestre e aluna, Bia Doria absorveu a convicção de que a arte pode e deve ser instrumento de denúncia, afeto e transformação. Krajcberg, pioneiro na defesa da natureza e crítico feroz da devastação ambiental, ensinou-lhe que os resíduos florestais carregam histórias de destruição, mas também possibilidades de renascimento.

É essa dualidade que Bia transforma em potência estética: troncos carbonizados por queimadas, raízes retorcidas, fragmentos de árvores mortas pela ação humana ganham nova vida em formas orgânicas, sinuosas, quase coreografadas. Ao mesmo tempo, o olhar feminino e delicado da artista confere às obras uma sensibilidade distinta, que amplia o legado de Krajcberg.

Hoje, ao trabalhar com materiais recuperados, a artista reafirma uma posição ética: “Criar é preservar, denunciar e reencantar”, diz ela.

Ateliê Bia Doria: viveiro de matérias e sentidos

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Localizado em São Paulo, o Ateliê Bia Doria acaba de ganhar um espaço concebido para revelar os diferentes universos que compõem sua produção. Projetado pela arquiteta Joia Bergamo, o ambiente combina amplitude, acolhimento e uma atmosfera de descoberta.

Ao caminhar entre esculturas imponentes de mármore, delicadas peças em quartzo rosa e obras vigorosas em madeira residual, o visitante percebe o fio condutor que une toda a criação de Bia: a busca pela poesia dentro da matéria bruta.

O mármore e o quartzo rosa, pedras resistentes e difíceis de domar, são moldados com paciência, precisão e força física. Ao final, no entanto, parecem leves, quase dançantes. São, como define a artista, expressões de resistência diante dos desafios que todos nós enfrentamos.

As esculturas em madeira, mais dramáticas e inquietantes, revelam seu diálogo constante com a natureza ferida e com a urgência de preservá-la. São obras que protestam, mas também encantam.

O espaço conta com áreas destinadas a encontros, conversas e eventos, incluindo uma cozinha ampla onde a artista recebe amigos, colecionadores e parceiros. A atmosfera é vibrante e calorosa, reflexo da própria Bia, cuja energia criativa contagia todos que passam pelo ateliê.

“Florações”: a delicadeza que nasce da floresta

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Entre suas séries mais recentes está “Florações”, inspirada na árvore brasileira cacauí, nativa da Amazônia e do sul da Bahia. A artista reproduz em suas esculturas a exuberância e a organicidade de suas flores, que surgem em cores intensas, vermelho, branco, negro e outras tonalidades vivas.

Como descreve Bia Doria, essas flores são “verdadeiras obras de arte que capturam o olhar e marcam a memória com uma profunda sensação de delicadeza”.

Aqui, a influência do mestre se funde ao traço pessoal: se Krajcberg explorava a dramaticidade das formas queimadas, Bia cria um contraponto de leveza, harmonia e feminilidade, reafirmando a capacidade da natureza de florescer apesar das adversidades.

No ateliê em São Paulo, cada peça conta uma história, de luta, de beleza, de resistência. É ali, entre pedras duras e madeiras feridas, que a artista continua a transformar matéria em poesia e protesto, florescendo em defesa da natureza que a inspira desde o primeiro golpe de cinzel.